Os efeitos na economia causados pela relação entre capitalismo e patriarcado

Segundo módulo do Curso Popular de Economia Política foi realizado virtualmente neste dia 6, numa parceria entre a Rede Jubileu Sul Brasil e a Semana Social Brasileira

 

Com a pergunta “Por que faltam empregos no Brasil?” o módulo 2 do Curso Popular de Economia Política, realizado neste 6 de abril, abordou a relação entre a economia e o trabalho, refletindo sobre como as desigualdades sociais afetam essa relação dentro do sistema capitalista.

O curso é desenvolvido por meio de videoaulas com a participação de educadoras e educadores economistas que aprofundam o tema a cada aula e com módulos que se conectam. As temáticas foram construídas de forma coletiva, a partir de uma enquete sobre dúvidas em economia na qual mais de 150 pessoas enviaram perguntas.

Contribuíram com a exposição dos temas do módulo 2 André Lima, professor de economia política da Universidade Estadual do Ceará, doutor em geografia humana, e Magnólia Said, advogada, feminista e educadora popular do ESPLAR – Centro de Pesquisa e Assessoria, ambos integrantes da Rede Jubileu Sul Brasil, além da economista Sandra Quintela, articuladora da Rede, que fez uma síntese recordando a primeira aula.

A mediação foi de Rosilene Wansseto, secretária executiva da Rede Jubileu Sul, que apresentou as questões centrais da segunda aula: É possível acabar com as desigualdades no capitalismo? Por que o trabalho das mulheres é desvalorizado? Qual a relação entre economia, gênero e cultura? Qual a relação entre economia, gênero e racismo estrutural?

André Lima abriu o debate pontuando que o sistema capitalista como conhecemos hoje “nem sempre existiu e não existirá para sempre”, sendo apenas um dos diversos modos de produção no processo histórico da humanidade

Ao explicar esse processo, Lima recordou que havia sociedades anteriores ao capitalismo, que tinham a mulher com um papel central, por exemplo, ou com a inexistência da divisão classes sociais como conhecemos hoje.  Com o tempo, as instituições da sociedade, como família, Estado, religião, vão se transformando e adquirindo novos papéis.

“É muito importante termos em mente que vivemos em um permanente processo de transformação, que é incessante, que nunca vai se acabar. Por isso que partimos dessa compreensão inicial de que o modo capitalista, que tem cerca de 350 anos, não existiu desde sempre. Ele teve um momento em que surgiu, se desenvolveu e fatalmente vai ter um momento que vai se acabar”, disse Lima.

A discussão seguiu explicando como o matrimonio individual se tornou uma forma de preservar a propriedade privada entre pequenos grupos, dando forma a uma cultura centralizada no homem e com a mulher tão somente como uma propriedade.

Segundo Lima, essa organização se dá antes mesmo do capitalismo, sendo o primeiro passo do período mercantilista. Naquele momento, a propriedade da terra era principal elemento de poder das classes dominantes. “Então tivemos o período feudal, a nobreza – os grandes proprietários de terra, a igreja, o clero – como as classes mais poderosas desse período”.

Esse processo avança com a expansão da classe mercadora que, ao acumular capital com a venda de produtos entre regiões, passa a perceber que o pagamento pela força de trabalho seria mais vantajoso que a compra e venda de produtos finais.

“É um processo muito importante que tem origem aí, mas que tem resultado hoje, no século XXI. Saímos de uma sociedade escravista em direção a uma sociedade capitalista, onde os meios de produção são de propriedade particular. Tínhamos diversos produtores individuais, ou coletivos, que detinham o seu meio de produção e esse meio foi gradativamente privatizado”.

A grande diferença entre o capitalismo e o feudalismo seria o surgimento dessas novas classes – o camponês que foi expropriado de seus meios de produção e se transforma em classe trabalhadora, e os mercadores que passam a dominar a produção se organizando como burguesia.

Como consequência dessas mudanças, se legitima a “exploração da força de trabalho por meio do assalariamento e a apropriação privada e individual da riqueza produzida por esse trabalho, a concentração de riqueza e a alienação do trabalhador. A ideia de alienação do trabalhador é a ideia de que o trabalhador produz a riqueza, que é apropriada por outro”, explica o professor.

André lembrou que o próprio sistema transforma o trabalhador em refém, pois o avanço tecnológico, grande marca do capitalismo, faz com que se necessitem cada vez menos trabalhadores no processo de produção. Sendo o sistema regulado pelas leis de oferta e demanda somente, o aumento de desempregados reduziria os salários, dificultando cada vez mais a subsistência.

Coube à Magnólia Said explicar como essa relação entre o trabalhador e a burguesia reforçava um sistema desigual também entre as questões de gênero e raça. Ela lembra que, desde o período feudal, a mulher esteve em posição de subordinação, tanto sobre a sua força de trabalho quanto a sua produção intelectual, reservando às mulheres um local de precarização das suas funções na economia, gerando postos de trabalho invisibilizados, informais ou com menor remuneração em relação aos homens.

“O neoliberalismo reservou para as mulheres um lugar de exploração e opressão de seus corpos e da sua força de trabalho. Para gerar o lucro contínuo, o capitalismo estabeleceu duas estratégias em relação às mulheres. A primeira estratégia na utilização da sua força de trabalho não paga e precarizada. A segunda estratégia é o controle do corpo das mulheres em relação aos direitos sexuais e reprodutivos, dando a esse corpo o tratamento que se dá a uma mercadoria”, destacou.

Após essa exposição, Magnólia defendeu a introdução do pensamento da economia feminista, que leva em conta justamente o que dá sustentação a esse mercado neoliberal. “Ela engloba, portanto, mais do que o mercado, mais do que aquele lugar onde só circula o dinheiro. Envolve a produção para o autoconsumo, envolve o mundo informal, o trabalho doméstico e o trabalho de cuidados”.

De acordo com Magnólia, essa corrente de emancipação precisa ficar cada vez mais forte entre as mulheres, ainda mais no contexto da pandemia, onde está clara a sobrecarga de trabalho e do aumento da violência com a qual as mulheres – especialmente as mulheres negras – estão lidando. A falta de prioridade do governo com essa questão também é evidente, como parte do projeto de preservação do lucro dos grandes capitais.

“Desse modo, o mercado vai exigir das mulheres que fiquem em casa agora com quatro empregos. Emprego remoto formal e informal, emprego doméstico, emprego de cuidar das crianças e o emprego da escolaridade, porque as mães têm que agora aprender a ensinar, a ser professoras”, criticou.

Magnólia explicou ainda que a ideologia patriarcal é a maneira como as mulheres são submetidas à condição desses trabalhos não remunerados. Essa ideologia busca esconder essas diferenças, como por exemplo nas tarefas domésticas onde os homens se colocam na posição de “ajudar” em um trabalho que deveria ser dividido igualmente entre os pares.

“A ‘dominação pelo afeto’, que eu chamo de ‘servidão voluntária pela via do afeto’, atravessa todos os campos onde estamos nos relacionando socialmente. As mulheres dizem que fazem tudo em casa por amor. No mundo sindical, urbano e rural, essa dominação é muito presente. […] O trabalho doméstico foi transformado pelo capitalismo como um atributo natural, um componente da personalidade feminina, algo inevitável e que traz plenitude para as mulheres”.

Não remunerar as formas de trabalho as quais o sistema capitalista empurrou às mulheres é uma escolha, pois dessa forma a sua autonomia é retirada, impedida. O sistema patriarcal vai buscar sempre as colocar em posição de vulnerabilidade, para que a exploração, a violência, os abusos continuem. Não é à toa que, como Magnólia Said lembra, quanto mais as mulheres avançam, mais a violência aumenta, no sentido de impedir a transformação nessa forma de produção. Para a educadora popular do ESPLAR, superar essas desigualdades só tem dois jeitos: pelas políticas públicas de educação e pelos movimentos feministas.

O próximo módulo terá como tema “Onde está o dinheiro? A ditadura da finança e da dívida pública para militantes”, com o encontro marcado para às 19h30 (horário de Brasília), dia 13 de abril (terça-feira), nos canais Youtube da Rede Jubileu Sul Brasil e da 6ª Semana Social Brasileira.

As aulas ao vivo têm acesso exclusivo aos participantes inscritos, mas o conteúdo das aulas anteriores está disponível para o para o público em geral nos canais das organizações. Confira:

Módulo 1

Módulo 2

Comentarios

  1. Muito obrigado pelo curso.
    Parabéns pela organização e trabalho dos professores.
    Sou docente da Universidade Pedagógica da Cidade Habana, Cuba.

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