Curso Popular de Economia Política termina buscando caminhos para a saída desse sistema

Com a questão geradora “Existem saídas para esse sistema?”, este foi o quinto e último módulo iniciativa conjunta da Semana Social Brasileira e Rede Jubileu Sul Brasil

Realizada na última terça feira (27), além de retomar os temas que marcaram os estudos sobre a economia, a apresentação buscou estudar quais questões estão ligadas às saídas para o quadro de aprofundamento da crise socioeconômica, a fim de explorar exemplos que sirvam de inspiração e possibilidades de rompimento com a organização atual da sociedade.

Como forma de abordar essa recapitulação, foram escolhidas as perguntas: “Tem algum jeito de organizar a economia sem gerar desigualdade?”; “Como fazer para descentralizar o sistema econômico das mãos de poucas pessoas?”; “Como construtores de uma sociedade mais fraterna, de que modo?”; “Como podemos fortalecer outras economias políticas?”.

Contribuíram para o debate alguns dos educadores que participaram dos módulos anteriores, como Adhemar S. Mineiro, economista e membro da Associação Brasileira de Economistas pela Democracia. Com mediação de Alessandra Miranda, da Semana Social Brasileira, participaram também Roberta Traspadini, doutora em educação pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e coordenadora do Observatório de Educação Popular e Movimentos Sociais na América Latina (OBEPAL-UFES); Fabio Luís Barbosa dos Santos, professor da Universidade Federal de São Paulo, e a economista Sandra Quintela, educadora popular e articuladora da Rede Jubileu Sul Brasil.

Adhemar Mineiro lembrou que a impossibilidade de ir às ruas tornou a situação mais pessimista, além de desequilibrar mais ainda o jogo de poderes políticos.

“Já são pelo menos seis anos de crise se arrastando pelo país, no meio de uma pandemia onde o processo de ir para as ruas fica debilitado pelo próprio processo da pandemia. É uma situação muito desfavorável e que nos enfatiza uma razão pessimista. Não há grandes pontos de que a gente nutrir esperança”. 

Esse cenário, com direitos sendo retirados e ataques diários às populações mais vulneráveis, colocou os movimentos em posição de defensiva e ao mesmo tempo ávidos por mudanças. A dificuldade está em como ganhar forças nesse jogo político, sem renunciar aos preceitos da luta contra o capitalismo: 

“Frente a essa situação, como mudar? Como sair dessa questão do pessimismo para uma situação a que você possa alterar essa correlação? Você pode pensar em uma combinação entre uma tática mais cautelosa de combinação de forças que tome em consideração a conjuntura, com uma estratégia mais ousada que tome em consideração uma estratégia onde nós queremos chegar. É fundamental que passemos por um processo de acumular forças, mas sem renunciar ao processo de transformação”, avalia. 

A doutora em educação Roberta Traspadini não pôde participar ao vivo, mas enviou um vídeo lembrando a importância de rememorar os tempos da América pré-colombiana e as formas de organização não capitalistas para, assim, projetar um novo modelo de vida.

 “Eu queria reforçar a importância que tem de a gente pensar para a frente ao olhar para trás, a partir da história da América Latina. Da história das resistências, da história das lutas que mantiveram presentes no nosso continente, muitos modos de produção são possíveis, para além do modo de produção capitalista. Mais do que nunca, os povos das florestas, das diversas etnias indo latino-americanas, afro-americanas tem a nos ensinar. O processo que me parece central é a gente reconhecer que por muito tempo deixamos de fora muitas vozes. Um dos maiores desafios é voltarmos a escutar essas vozes, aprender com eles e com elas e aprender juntos outros caminhos possíveis”.

Fabio Luís Barbosa dos Santos, professor da Universidade Federal de São Paulo, afirma que a esquerda se encontra presa a três dilemas que têm travado o processo de luta pelas causas sociais no momento.

 “Primeiro, o progressismo tem uma inversão de lugares, a direita aparece como a favor da história, a favor do progresso, digamos assim, e na esquerda o progressismo se tornou uma espécie de restauracionismo, na medida em que reivindica uma volta ao passado, mas um passado que não vai mais voltar. Qual que é esse mundo que não vai mais voltar? É o mundo da cidadania salarial, é um mundo que estava prometido, no caso brasileiro, ali prefigurado na Constituição de 1988. O segundo dilema é que a esquerda tem defendido o progressismo, a Constituição e as instituições diante de uma direita que perverteu a rebeldia, a direita que se coloca contra uma ordem que, no geral, a esquerda historicamente foi contra. E o terceiro dilema é uma esquerda que não abandona a gramática do progresso, mesmo diante do fato que assistimos o progresso levando ao fim do mundo, seja pela via atômica, seja pela via ecológica, seja pela via pandêmica”, pontuou. 

Reconhecendo essa situação do cenário atual, Fábio afirma que a alternativa socializadora é possível, mas somente propondo com a visão no futuro, no horizonte. Cabe à esquerda imaginar hipóteses de uma sociedade civilizatória.

“O problema não é a falta de dinheiro, no sentido de que o dinheiro é um signo de riqueza. Vivemos numa sociedade da abundância do material, da abundância da riqueza, o problema é o caráter privado da apropriação. A produção da riqueza adquire essa forma da mercadoria, então a primeira imaginação é como é uma sociedade sem dinheiro, uma sociedade que tem condições tecnológicas de se emancipar do trabalho. Na nossa sociedade o problema não é falta de trabalho, o problema é o trabalho nessa ordem. Há compulsão ao trabalho, o trabalho sobrevive como um fator de disciplina social. Não é o fim do trabalho no sentido de que é produção, a atividade produtora é da vida, mas é uma sociedade na qual o trabalho pode ser livre da coerção, sua finalidade última é a reprodução da vida, reprodução social, e um meio para a reprodução da vida nunca é um fim”, destacou. 

E questionou: “Como imaginar a organização social sem a coerção do Estado, como imaginar uma ordem sem polícia, sem advogado, sem publicidade, sem arma, sem obsolescência programada, sem a criação mercantil de necessidades, como o mundo das redes sociais? Como imaginar uma vida sem chefe, em que a iniciativa vem de fora ao invés de vir de dentro?”.

Por fim, Sandra Quintela, articuladora da Rede Jubileu Sul, lembrou que é fundamental um profundo entendimento da sociedade na qual vivemos, para evitar discursos ilusórios.

“É muito importante termos um profundo entendimento do funcionamento da sociedade, porque só assim podemos, de fato, aprofundar e mudar. Muita gente pensa que a economia só pode funcionar desse jeito que está aí, que precisamos de grandes empresas para trazer o desenvolvimento, o progresso. Isso é uma falácia porque o desenvolvimento no capitalismo é desenvolver o capitalismo, o progresso do capitalismo é progredir o próprio capitalismo e suas contradições”. 

A educadora popular acredita que a solução virá de uma construção coletiva da nossa sociedade. Para isso é preciso um esforço de cada um de nós, para nos reconstruirmos diante desse sistema, gerador de exploração e miséria:

“Essa pandemia veio e escancarou muita coisa. A pandemia não nos trouxe a crise econômica, ela escancarou a crise econômica, as desigualdades que são crescentes no mundo, e ajudou em muito a aprofundar a concentração de riqueza dos bilionários. Acho que temos desafios pela frente. Em 2022 são 200 anos de Independência do Brasil, acho que oferece para nós oportunidades incríveis da refletir sobre a constituição desse Estado brasileiro, sobre esse processo desses 200 anos, o que acumulamos, resistimos, conquistamos, onde estávamos e no que precisamos ainda avançar nesse período. Para encontrar saídas, a saída não é uma só, não virá de nenhum iluminado nem iluminada, vai ser uma construção coletiva. Essa consulta coletiva terá que ser de baixo para cima, de dentro para fora, porque, como disse Che, precisamos transformar e construir, construir como um novo homem, uma nova mulher, uma nova criança, novos idosos, para que possamos construir uma nova sociedade”.

As aulas ao vivo tiveram acesso exclusivo ao longo dos cinco módulos para os participantes inscritos, mas o conteúdo completo está disponibilizado para o público em geral nos canais de YouTube da Rede Jubileu Sul Brasil e da Semana Social Brasileira.

Confira o vídeo do módulo 5:

Comentarios

  1. Me alegra que en el tratamiento de estos temas se retome la concepción guevariana como como uno de los referentes de la nueva sociedad a la que aspiramos, que en cualquiera de sus variantes pasa por el prisma del poder, cómo única vía de solución anticapitalista a los problemas de hoy.

Deja una respuesta

Tu dirección de correo electrónico no será publicada. Los campos obligatorios están marcados con *