COP 26 continua a falhar com as pessoas e a natureza

Falsas soluções são perigosas respostas comerciais e tecnológicas que nasceram de cúpulas climáticas, perpetuando o «desenvolvimento» dependente de petróleo, baseado na extração de bens comuns e à custa da vida de milhares de seres, corpos e territórios

Por Jubileu Sul/Américas, com tradução do Jubileu Sul Brasil 

O Centro de Convenções de Glasgow, na Escócia, é sede de um encontro multilateral promovido pela Organização das Nações Unidas (ONU). O cordão de segurança continua sufocando ao longo de dez ruas ao redor, havia cercas por toda parte, uma fila interminável de policiais impedindo quem não têm credenciamento oficial e uma mensagem no celular confirmando que o teste do antígeno realizado na mesma manhã deu resultado negativo, sistema que os ativistas descreveram como «vacina do apartheid».

A Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas, conhecida como COP 26, talvez tenha a participação mais branda e de setores privilegiados da história, visto que milhares de pessoas do sul global não puderam comparecer por falta de acesso às vacinas contra COVID-19 e por causa da restrições a viajar. A desigualdade no acesso às vacinas em todo o mundo reproduz o impacto desproporcional que as mudanças climáticas têm causado no mundo. Os países empobrecidos são os que mais sofrem com os efeitos das mudanças climáticas e, por sua vez, os menos responsáveis ​​pelas emissões de CO2.

Nesta segunda semana de encontros, estão os responsáveis ​​pela destruição do planeta e dos bens comuns, chegando em seus aviões poluentes, a bordo de seus carros a diesel e  gasolina, com seus duplos padrões cheios de bravatas e promessas. Essa cúpula se baseia na legalização e na normalização da proteção aos interesses empresariais que, por sua vez, nada mais buscam que perpetuar o sistema neoliberal, extrativista e de acumulação sem fim.

Embora nas semanas anteriores se tenha falado em «reduzir o consumo de combustíveis fósseis» como uma das principais medidas para enfrentar e se adaptar às mudanças climáticas, a cúpula foi atormentada por termos caprichosos e enganosos de dupla raça e que estabeleceram falsos objetivos, que são inatingíveis ou que se baseiam em indústrias extrativas, monoculturas e mercados de carbono. Em um momento de crescente indignação global com a ganância de empresas que queimam o planeta para engordar suas margens de lucro, querem continuar a extrair combustíveis fósseis e serem considerados «sustentáveis».

Ivonne Yanez está em Glasgow, faz parte da coalizão COP26 representando a Acción Ecológica e a Rede Jubileu Sul/Américas, e nos explica o que vai acontecer nesta cúpula. Quem deve acompanhar os compromissos ali definidos pelos governantes?

“Na primeira semana de negociações, viu-se que 151 países apresentaram seus compromissos nacionais de redução de emissões, prometendo reduzir 90% das emissões que ocorrem no planeta. No caso do Equador estão comprometidos com a expansão de Galápagos à área de reserva, os Estados Unidos prometeram reduzir as emissões de metano em 30%, anunciando planos para uma agricultura inteligente para o clima. No entanto, esses anúncios apenas fortalecerão o mercado de carbono”. 

Ainda segundo ela, “o comércio de carbono não é confiável, seus benefícios não foram comprovados e sobrecarrega injustamente os países pobres com a responsabilidade de resolver as mudanças climáticas”. 

Ivonne Yanez explica que “desde as organizações da sociedade civil, estamos trabalhando paralelamente à COP 26, e vamos à COP para saber o que está sendo discutido, denunciamos que todos esses compromissos não significam que as emissões serão reduzidas na prática porque, através dessas novas soluções falsas como ‘emissões 0’ ou ‘soluções baseadas na natureza’, tentamos legitimar, legalizar a ‘compensação’ das emissões de combustíveis fósseis, pois todas as afirmações são baseadas nos negócios do mercado de carbono e não à favor do combate às mudanças climáticas”.

Mercados de carbono: uma ameaça para as pessoas

Os mercados de carbono representam uma ameaça aos povos, à política e ao planeta, e são uma estratégia de «lavagem verde», ou seja, agem «sob a falsa e não científica premissa de que compensar as emissões e a venda de licenças para poluir reduzirá esse aquecimento global» .

Eles funcionam de duas maneiras: continuar poluindo – desde que as emissões combinadas de todos os poluidores daquela área não ultrapassem um determinado limite -, e a falácia de “compensar” emissões: ou seja, reduções de emissões derivadas de projetos alternativos a outras atividades mais poluentes, o que significa que a poluição de uma mineradora ou empresa de hidrocarbonetos pode ser compensada com monoculturas, já que essas árvores vão «absorver» boa parte do carbono que já foi emitido. 

Na prática não reduzem as emissões ou representam qualquer ação verdadeira contra as mudanças climáticas, além de ter impactos terríveis para os povos indígenas e comunidades locais com mais expropriação de terras, ataques e ameaças à vida, já que essas “soluções” exigem cada vez mais terras e recursos comuns.

O lado perverso do marketing orgânico ou marketing Kiwano

Greenwash ou greenwashing é um termo usado para descrever as práticas que certas empresas realizam para dar um “toque especial” à apresentação de seus produtos ou serviços, fazendo com que pareçam ecologicamente corretos ou ecológicos. Consiste em sublinhar seletivamente um ou dois atributos virtuosos de um produto, fingindo que não há nada de negativo nele.

A luta contra as mudanças climáticas tem que vir das raízes

Organizações e movimentos sociais rejeitam as falsas soluções propostas na COP26, como as “Baseadas na natureza”, o mercado de carbono, pois vão de mãos dadas com a militarização dos territórios, a criminalização, assédio e assassinato de mulheres defensoras fazendo mais e mais É evidente que os Estados continuam em conluio com as indústrias extrativas.

Essas falsas soluções não visam enfrentar a crise climática, mas sim garantir os negócios de grandes empresas. Implicam a expansão das monoculturas e práticas conservacionistas que atacam os camponeses e os povos indígenas. Também caminham lado a lado com a militarização de territórios para proteger as empresas extrativistas.

Como aponta a Acción Ecológica, as falsas soluções são perigosas respostas comerciais e tecnológicas que nasceram dessas cúpulas climáticas, perpetuando o «desenvolvimento» petro-dependente baseado na extração de bens comuns e à custa da vida de milhares de seres, corpos e territórios.

Aldrin Calixte, da Plataforma Haitiana de Ação por um Desenvolvimento Alternativo (PAPDA), também faz parte das vozes progressistas que protestam nas proximidades da cúpula do clima das Nações Unidas exigindo ações imediatas, justas e concretas dos líderes mundiais, no âmbito COP26. Para Aldrin, que apresenta as reivindicações e demandas de reparações da articulação caribenha “as promessas vazias e lavagens verdes não devem ser celebradas. Devem ser incluídas as demandas específicas dos povos credores de uma dívida ecológica histórica, já que foram os menos responsáveis pelas emissões e degradação ambiental”. 

A partir da segunda semana da cúpula, na qual se espera a presença de altas lideranças, nós da Rede Jubileu Sul/Américas afirmamos que a agenda da justiça climática deve estar orientada para uma mudança sistêmica e radical do atual sistema de produção e consumo.

Lembramos também como este sistema predatório, capitalista e patriarcal gera enormes desigualdades – especialmente em nosso continente – é uma violência que provoca migrações forçadas, assassinatos e perseguições às defensoras e defensores. Que é o mesmo sistema que também é a causa da maior exposição às consequências das alterações climáticas, da desapropriação e da ameaça aos modos de vida tradicionais e ancestrais, ou seja, numa acumulação contínua de dívidas ecológicas e históricas com os povos e a natureza.

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